A História do Reggae Parte 1 Mento e Ska

    • local de origem do reggae é uma hoje famosa ilha caribenha, a terceira maior da região, com o tamanho equivalente à metade do território do estado de Sergipe. Desde o século XVI até meados do século XX ela foi submetida às políticas exploratórias do sistema colonial. A população nativa, composta pelos índios arawak, chamava a ilha de Xaymaca (Terra das Primaveras), e tal denominação foi a única herança que deles restou, transformada em Jamaica.

A ilha foi “descoberta” por Colombo em 1494 e ficou sob domínio espanhol até 1660, quando foi tomada por piratas ingleses como Harry Morgan, mais tarde feito governador da nova colônia. Relegada a ser mais um fornecedor de cana-de-açúcar e outras matérias-primas, a ilha foi, por 250 anos, um dos muitos destinos dos africanos tirados à força de suas terras para trabalhar nas plantações do Novo Mundo. A grande maioria veio da costa ocidental do continente negro, de etnias como a dos Ibos, Coromantee, Hausa, Mandingo, Nagô e Yorubá. Os dois últimos povos também foram a origem de grande parte da mão-de-obra escrava trazida para o Brasil.


Um rabequeiro toca para duas jovens durante o período colonial (fonte: Biblioteca Nacional da Jamaica)




As tradições destes povos foram preservadas na Jamaica atual em comunidades como a nação Bongo, no leste da ilha, e entre os maroons (antigos quilombos). São comunidades que se dedicam a práticas religiosas chamadas por lá de kumina ou pocomania, parecidas com as que temos nas crenças afro-brasileiras, como o candomblé. No entanto a influência puramente africana na Jamaica é mais remota porque lá o tráfico de escravos foi abolido mais cedo, em 1807, enquanto que as colônias espanholas do Caribe, como Cuba, continuaram a receber novos escravos até 1860. Mesmo assim a música que vinha de seus tambores teve uma influência direta sobre o reggae, como pode ser ouvido em canções como “Rastafari is”, de Peter Tosh, ou no canto tradicional “Rastaman Chant”, gravado pelos Wailers no álbum “Burning”. As canções tradicionais têm o formato de chamado-e-resposta, base de todos os estilos de música negra. A música popular européia, na forma das quadrilhas e canções trazidas pelos ingleses e os intrumentos trazidos por estes, como a rabeca (desenho acima), também teve o seu papel na evolução musical jamaicana.

Mento




Banda de mento de Sugar Belly (com seu sax de bambu)







A fusão desses estilos, que hoje são considerados como parte do folclore da ilha, gerou o mento, forma musical aparentada com o calipso que usa uma grande variedade de instrumentos, como o banjo, flautins e o violão, muitos deles artesanais como flautas e “saxofones” de bambu. Ainda hoje existem bandas de mento na ilha, a mais famosa delas é a Jolly Boys, que chegou inclusive a gravar um reggae com Lee Perry, a bela “Concious Man”.



Mento Music



A grande contribuição do mento foi impulsionar a criação da indústria fonográfica jamaicana, já que os primeiros discos lançados por lá foram desse estilo. No entanto naquela época, primeira metade dos anos 50, já estava acontecendo uma migração considerável da população do interior para as grandes cidades e o mento, associado com as durezas da vida no campo, não conseguiu manter seu lugar no entre os jamaicanos. A levada do mento continua viva no reggae, principalmente em artistas como Eric Donaldson, The Starlights e os Maytones, e também nos ritmos da era digital, que já a reaproveitou algumas vezes.








Em Kingston ou Spanish Town o som que mais agradava no final dos anos 50 era o rhythm & blues americano, que reverberava nas ruas através dos sound-systems, então um simples toca-discos ligado a uma ou duas caixas de som, mas que tinha potência suficiente para colocar todos para dançar. As músicas gravadas então nos precários estúdios disponíveis tentavam imitar o estilo americano. Isso mudou em 1961 com o lançamento de “Oh Carolina”, uma tentativa do produtor e dj Prince Buster de misturar os sons com que havia tomado contato nos rituais rastafari com o vocal do blues, algo totalmente diferente do que se ouvira até então. O sucesso foi enorme e pela primeira vez na Jamaica os tambores afro ganharam o rádio (em 1993 Shaggy fez uma versão ragga que estourou mundialmente). Era o início de um movimento de revalorização da identidade cultural da ilha, que chegaria ao auge em agosto do ano seguinte, quando ela conseguiu oficialmente se libertar da sua condição de colônia inglesa.


Ska

                                                             


Prince Buster





Steve Barrow chamou o ska de “declaração de independência musical jamaicana” , um estilo que nasceu ligado ao período de grande entusiasmo e afirmação dos valores culturais locais. Ao mesmo tempo que os discos de rhythm & blues ficavam cada vez mais difíceis de se achar, a Jamaica fervilhava de talentos musicais. O novo ritmo começou a surgir espontaneamente e apesar de muitos disputarem o título de “pai” do ska, como Prince Buster (foto), Clue J, Coxsonne Dodd e outros, ele foi na verdade uma criação coletiva, como costuma acontecer nesses casos.


O nome ska também é cercado de controvérsia. Alguns dizem que seria uma onomatopéia que imita a forma peculiar de tocar guitarra herdada pelo reggae (também chamada de tchaka-tchaka), enquanto outros juram que sua origem estaria na gíria das ruas, e seria uma abreviatura da interjeição de aprovação “skavoovie”. De qualquer modo, a levada vibrante do ska conquistou primeiro os guetos onde nasceu e logo seria aceita pelas platéias em toda a ilha.

Inspirado nas big bands americanas, o ska se impôs como um estilo tocado por grandes conjuntos, com destaque para o naipe de sopros.

Os Skatalites eram a banda principal, cujo nome era uma homenagem aos satélites de comunicação que estavam começando a interligar o planeta. Composta pelos saxofonistas Tommy McCook (que era o líder de fato do grupo) e Roland Alphonso, o trombonista Don Drummond e outros instrumentistas, era a banda de estúdio mais rodada de Kingston. Eles tocaram com os maiores talentos que emergiam na cena jamaicana, como Bob Marley, Peter Tosh, Lee Perry, Jimmy Cliff, Toots Hiberts and The Maytals e muitos outros.

 Skatalites

Quase toda a primeira formação dos Skatalites excursionou pela Inglaterra com o nome de Soul Vendors em 1966. Da esquerda pra direita: Lloyd Knibbs (bateria), o cantor Alton Ellis, Lloyd Brevette (contrabaixo), Jackie Mitoo (órgão), Roland Alphonso (sax), Ernest Ranglin (guitarra solo), Johnny “Dizzy” Moore (trompete), Jah Jerry, (guitarra base) e o cantor Ken Boothe (com o pandeiro). Ellis e Boothe já são representantes do nascente rocksteady. McCook e Drummond não viajaram.

Outras bandas como as de Carlos Malcolm , Byron Lee e Baba Brooks também gravaram o ska. A banda percorreu toda a ilha e se apresentava sempre com grande sucesso. A delegação jamaicana que compareceu à Feira Mundial de Nova York de 1964 levou a banda de Byron Lee, diversos cantores e dançarinos de ska, institucionalizando pela primeira vez a música do gueto como representativa da cultura local.

 Mccook

O Ska começou a perder força quando Drummond matou sua namorada, a cantora Marguerita, e foi preso. Os Skatalites começaram a se desmantelar e fizeram a última apresentação desta primeira formacão em 1965. Além da queda de Drummond, algumas características da geografia e do contexto cultural jamaicano começaram a influenciar a evolução dos estilos musicais locais. Primeiro: o fato de ser um mercado pequeno (a ilha tinha na época um milhão e meio de habitantes), pobre e auto-centrado, com pouca ou nenhuma participação das gravadoras multinacionais no processo. Segundo: não se gravavam álbuns inteiros, mas sim compactos de 7 polegadas, com uma ou duas faixas de cada lado.




                                                                Willow Weep





Assim, a produção e divulgação das músicas era tão ágil que as faixas eram gravadas e mixadas durante a manhã, prensadas à tarde e tocadas à noite nos bailes, os dancehalls, que eram animados pelos sound systems. Além disso, como os artistas ganhavam por faixa gravada, sem receber direitos autorais das dezenas de pequenas gravadoras locais, a produção era intensa. O pequeno poder aquisitivo da população condicionava um processo que levava o público a, primeiramente , ouvir, sentir e dançar cada faixa, para depois decidir se valia a pena comprar o disco correspondente, ação que era acompanhada de perto pelos produtores e músicos.

Deve-se acrescentar ainda a força da intensa competição entre os diversos sound systems, como os de Coxsonne, Reid e os tradicionais Metro Media e Kilimanjaro. Os seus donos estavam sempre à procura de novas sonoridades que poderiam chamar a atenção dos freqüentadores dos bailes e bater os rivais, como aconteceu várias vezes na história do gênero. A Jamaica se transformou em um laboratório sociocultural vivo e dinâmico, tocado, entre outros fatores, pelo ritmo da música.

Por tudo isso, no verão de 1966, o ska seria substituído no coração do público da ilha por uma nova batida, o rocksteady, assunto da parte 2 da nossa História do Reggae.

 Rico Rodriguez

Somente vinte anos depois os Skatalites voltariam a tocar juntos, tornando-se parte de uma bem-sucedida retomada do ska, que foi iniciada na década de 1970 pelos filhos dos imigrantes jamaicanos na Inglaterra, formando grupos interraciais como The Specials (ver capa do compacto “Gangsters” ), The Selecters etc.

Nomes importantes dos anos 60, como Rico Rodriguez (foto) puderam gravar novamente. Hoje o ska ganhou novo fôlego com a chamada third wave, através de grupos com o Hepcat, Toasters e muitos outros que podem ser acompanhados em nossa coluna sobre o ritmo, Skarcéu.

 Skatalites


Fonte: Massive Reggae

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